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22 de Setembro de 2019

Capitalismo e desigualdade social

O capitalismo causa a desigualdade social?

Guilherme Ribeiro, Estudante de Direito
Publicado por Guilherme Ribeiro
há 6 meses


Inicialmente então, o que seria o capitalismo?

Capitalismo seria o sistema do capital, mas acontece que todo sistema econômico fatalmente terá de ou ser o sistema do capital, ou então enfrentará a escassez. Isso porque capital na acepção daquilo que ele pode ser é apenas uma coisa: riqueza aplicada para a geração de mais riqueza.

Isso se dá porque, como já dizia o Filósofo, as coisas se degeneram, e isso inclui as coisas nas quais trabalhamos. Se as coisas se degeneram, tanto porque as consumimos, tanto pela natural deterioração que elas sofrem, para que elas possam se manter é necessário que apliquemos algum trabalho, seja para reparar o que quebra, seja para repor o que se gasta.

Dessa forma uma coisa naturalmente vale mais agora do que depois, pois depois ela estará corrompida em relação ao seu uso imediato. Esse conceito, de que eu prefiro temporalmente as coisas agora do que depois, é chamado de preferência temporal, e é maior tanto mais eu prestigie o consumo imediato em prol do posterior.

Dessa forma eu só tenho três alternativas econômicas: consumir a coisa feita imediatamente antes que ela deteriore, constantemente trabalhar sobre essa coisa afim de que ela mantenha seu estado original ou aplicar essa coisa feita de tal forma que eu a troque por algo mais adequado as minhas necessidades atuais.

No primeiro caso a geração de riqueza é impossível porque todo o trabalho é consumido imediatamente e eu terei que aplicar constantemente o meu trabalho apenas para satisfazer necessidades imediatas. É a forma como os animais vivem e como nossos ancestrais viveram de caça e coleta por algum tempo.

O segundo caso também não gera riqueza pois a aplicação das forças de trabalho é integralmente para repor daquilo que se gasta, mas como o próprio trabalho exige algum gasto, o próprio trabalho em médio termo consome o esforço produtivo, uma vez que o corpo também sendo alvo de degeneração, exige cada vez mais trabalho contra maior degeneração do corpo. A riqueza é gerada lentamente e tem de ser mantida sempre pelos mais jovens às custas do isolamento dos mais velhos. É a forma tribal de economia

E o terceiro caso é a troca do artefato de trabalho produzido por algum outro mais necessário para o consumo imediato. Essa troca é o único meio de superar a entropia (a degeneração) das coisas materiais, pois aquele que recebe, recebe algo que para ele é mais importante naquele momento, e o que entrega troca por algo que necessariamente possui maior valor para ele agora. Assim cada agente econômico pode se especializar naquilo que faz e proporcionar. É a modalidade das sociedades agrícolas

Acontece que essa terceira modalidade de produção evolui naturalmente para uma quarta modalidade. A modalidade onde os agentes econômicos começam a determinar padrões e protocolos de troca, que chamamos por moeda. A moeda permite guardar um valor de troca para uma troca posterior, e finalmente essa moeda pode ser aplicada como abstração das produções superando a entropia da degeneração física através da distropia natural da mente humana (nossos corpos degeneram ao passo que nossas mentes amadurecem). É a modalidade das sociedades citadinas

O capitalismo, como convencionado, é nada além da evolução dessa quarta modalidade para uma quinta modalidade, das sociedades cosmopolitas, onde a própria abstração da moeda pode conceber todo o sistema econômico, criando uma rede de trocas apenas por moedas (ativos, bens de capital e afins) que sustenta uma rede de produção de bens e serviços. É o fim da entropia econômica, desde que, mantidas as baixas preferências temporais dos agentes econômicos, isto é, que os agentes econômicos naturalmente prefiram manter a maior parte de suas trocas no sistema de capital e não no sistema de produção.

É aí que entra a desigualdade. Nem todos os indivíduos possuem a mesma preferência temporal, e isso é por motivos diversos, que vão desde a história até a disposição genética. Essa desigualdade sempre existiu, ela é natural, mas apenas é evidente que, conforme os sistemas de capital priorizam a baixa preferência temporal para ampliação de recursos, é evidente que eles maximizam as diferenças entre os diversos perfis de preferência temporal.

Já os sistemas de menor capital e maior preferência temporal, naturalmente reduzem as diferenças de potencial entre os agentes, mas por sua vez, são incapazes de manter altos níveis de produção e abastecimento dos agentes econômicos.

Assim sendo é evidente que quanto maior a diferença de potencial (o que chamamos por desigualdade social) maior a capacidade de produção,e assim sendo menor a escassez de itens, produtos e serviços.

Não se trata, portanto, de que o capitalismo produz desigualdades: ele as aumenta sob a compensação de ampliar, igualmente, a capacidade de abastecimento e consumo de pessoas que, inclusive tendo um algo grau de preferência temporal, não seriam capazes sequer de sobreviver em sistemas mais primitivos de organização econômica.

Ele apenas cobra um preço maior de quem precisa com mais urgência agora do que depois, cobrando a preferência temporal gasta para atender aquele consumo imediato. É a lei da oferta e procura, que se percebermos bem, é a mesma coisa que o juros (o juros é nada mais que a taxa cobrada pelo tempo de uso adiantado do capital)

Então não temos que o capitalismo seja um "vilão", ele apenas é um sistema capaz de reverter a entropia natural usando abstrações. Sendo ainda mais analítico, trata-se de um sistema racional, que aplica a capacidade de abstração humana para resolver problemas de contorno na aplicação de trabalho para obter a relação máximo desempenho com mínima perda. Um balanço energético que aplicamos para ampliar as condições de existência, sob certas condições indesejáveis, no caso, a desigualdade ampla.

Isso em termos econômicos. Em termos morais, não existe dúvida que muitos dos "capitalistas" desenvolveram-se em cima de roubos, trambiques e sujeiras, mas nem todos. A não ser que você tenha por admissão de que direitos de propriedade sejam um roubo, mas essa definição é pouco condizente com a realidade

Sob um aspecto de uma ética utilitária é pouco producente porque ela não é sustentável em uma economia de alto padrão, como já coloquei nos argumentos acima. Ou seja, uma realidade dessas seria incompatível com o padrão de vida atual e causaria a morte de inúmeras pessoas.

Sob um aspecto de uma ética universal e racional, é ainda menos justificável, já que você terá de admitir que atribuir a posse exclusiva de algum recurso é uma ação moralmente injustificável, mas para isso você terá de usar exclusivamente um recurso tangível e exposto a degeneração comum, que é o seu corpo, para realização a justificação, entrando em uma contradição.

A não ser que você negue o corpo como um recurso tangível e degenerativo passível de ser posto para um objetivo específico, mas não existe nenhum argumento que não possa ser, por si mesmo, resultado do uso do corpo como um recurso posto para um fim (validar uma premissa)

Assim sendo, é impossível argumentar contra a definição de corpo como recurso, e da impossibilidade de negar direitos de propriedade sem cair em uma contradição performativa.

2 Comentários

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kkkk @Hoppe continuar lendo